Dívida técnica também é uma decisão de negócio

Parte da dívida técnica registra escolhas que fizeram sentido. O problema começa quando uma decisão temporária ganha consequências permanentes.


“Precisamos pagar a dívida técnica.”

Essa frase aparece com frequência nas conversas de tecnologia.

Normalmente acompanhada de uma lista.

Uma arquitetura que precisa ser revista.

Código que precisa ser refatorado.

Integrações frágeis.

Sistemas que ficaram maiores do que foram originalmente projetados para ser.

É tentador olhar para essa lista como um inventário de decisões técnicas ruins.

Mas nem sempre é.

Parte da dívida técnica é o registro de decisões de negócio que fizeram sentido em determinado momento.

Precisávamos lançar.

Havia uma janela de mercado.

Um cliente precisava da solução.

O orçamento era limitado.

Uma hipótese ainda precisava ser validada.

O negócio precisava aprender antes de investir mais.

Então fizemos uma escolha.

Aceitamos determinada limitação em troca de velocidade.

E aquela pode ter sido uma decisão perfeitamente razoável naquele contexto.

O problema não está necessariamente em criar a dívida.

Está em esquecer que ela foi criada.

Porque o provisório tem uma característica perigosa em tecnologia: se funcionar, começa a receber novas responsabilidades.

A integração emergencial ganha outras dependências.

A solução criada para validar uma hipótese recebe mais clientes.

A arquitetura pensada para determinado volume passa a sustentar um negócio muito maior.

E uma decisão que tinha uma justificativa clara continua existindo depois que essa justificativa desapareceu.

É aí que os juros começam a aparecer.

Mais incidentes.

Mais esforço para fazer mudanças aparentemente simples.

Mais dependências.

Maior custo operacional.

Menor velocidade para evoluir o produto.

Nesse momento, dívida técnica deixa de ser apenas uma discussão sobre código.

Passa a ser uma discussão sobre risco, estratégia e alocação de capital.

Tecnologia precisa conseguir explicar onde está a dívida, quais consequências ela produz e quanto custa continuar carregando-a.

Mas decidir quanto risco aceitar, por quanto tempo e em troca de qual resultado não deveria ser responsabilidade exclusiva da engenharia.

Essa é uma decisão de negócio.

Por isso, talvez uma organização madura não seja aquela que tenta eliminar toda dívida técnica.

Provavelmente isso nem seria desejável.

É aquela que sabe qual dívida está carregando, por que decidiu assumi-la e em que momento pretende voltar a discuti-la.

Dívida técnica não é necessariamente sinal de uma decisão ruim.

O problema começa quando uma decisão temporária ganha consequências permanentes sem que ninguém volte a discuti-la.

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