A consequência da automação de que pouco se fala

Automatizar um processo transforma decisões em comportamento do sistema, inclusive as exceções. Com IA, governar essas regras fica ainda mais importante.


Existe uma consequência da automação sobre a qual falamos menos do que deveríamos.

Quando automatizamos um processo, não estamos apenas tornando sua execução mais rápida.

Estamos transformando determinadas decisões em comportamentos do sistema.

Imagine uma empresa com diferentes regras para aprovar condições comerciais.

Algumas foram criadas para proteger margem.

Outras surgiram para atender clientes específicos.

Algumas nasceram de situações excepcionais.

Com o tempo, essas regras passam a fazer parte da operação.

Então surge uma oportunidade de automação.

A tecnologia organiza os critérios, implementa as validações e integra os sistemas.

O que antes levava horas passa a acontecer em segundos.

Do ponto de vista operacional, o resultado pode ser excelente.

Mas existe uma consequência importante.

Aquelas regras, antes interpretadas e aplicadas por pessoas, agora fazem parte do funcionamento automático da empresa.

Inclusive as exceções.

Inclusive critérios que talvez já não façam sentido.

Inclusive decisões tomadas em contextos que não existem mais.

A automação não elimina necessariamente as limitações de um processo.

Ela também pode torná-las mais consistentes, rápidas e difíceis de perceber.

Com inteligência artificial, essa discussão ganha outra dimensão.

Estamos ampliando nossa capacidade de automatizar atividades que antes exigiam interpretação, classificação e julgamento.

Isso cria oportunidades importantes de produtividade, mas também aumenta nossa responsabilidade sobre aquilo que colocamos em funcionamento.

Porque uma decisão aplicada manualmente pode afetar uma operação.

A mesma decisão incorporada a um sistema pode influenciar milhares.

E continuar sendo executada mesmo depois que as condições que a justificavam mudaram.

Por isso, uma discussão sobre automação não deveria terminar quando comprovamos que o processo ficou mais rápido.

Precisamos entender também:

Quais decisões foram incorporadas à solução?

Quais premissas continuam válidas?

Quem responde por esses critérios?

Como identificamos consequências não previstas?

E quando eles deverão ser revistos?

É nesse ponto que liderança tecnológica e visão de negócio precisam trabalhar juntas.

Tecnologia pode garantir que uma regra seja executada corretamente.

Mas a organização precisa continuar responsável por avaliar se aquela regra ainda é adequada.

Automatizar é ampliar nossa capacidade de executar decisões.

Governar é preservar nossa capacidade de questioná-las.

Publicado originalmente no LinkedIn. Ler e comentar no LinkedIn ↗

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