Confiamos na nossa percepção com uma naturalidade curiosa. Tomamos decisões, formamos opiniões, avaliamos pessoas e interpretamos acontecimentos sem dedicar muito tempo à pergunta que talvez venha antes de todas as outras:
Quem é aquele que está observando?
Costumamos direcionar a atenção para fora. Para os fatos. Para as circunstâncias. Para o comportamento dos outros.
É um movimento natural.
Afinal, é mais fácil descrever o mundo do que investigar o ponto a partir do qual o mundo está sendo descrito. Mas existe uma limitação silenciosa nesse processo.
Observamos tudo através de filtros que raramente percebemos. Medos, desejos, expectativas, experiências passadas e crenças participam da construção daquilo que chamamos de realidade. Nem sempre enxergamos apenas o que está diante de nós.
Frequentemente enxergamos também aquilo que carregamos conosco.
Calibrar antes de medir
Quando um instrumento produz resultados inconsistentes, o primeiro passo costuma ser verificar sua calibração. Curiosamente, fazemos o contrário com a atenção. Confiamos nela de forma automática, mesmo sem compreender como ela está operando.
Calibrar a atenção não é um exercício abstrato nem uma prática reservada a contextos extraordinários. É perceber, em situações comuns, aquilo que a nossa própria mente adiciona à experiência.
O medo que antecipa cenários que ainda não existem.
O desejo que enfatiza apenas aquilo que confirma suas expectativas.
A pressa que reduz a complexidade para chegar rapidamente a uma conclusão.
A necessidade de estar certo que transforma observação em defesa.
Quando começamos a perceber esses movimentos, algo muda.
O observador deixa de olhar apenas para o mundo e passa a incluir a si mesmo no processo de observação. E essa mudança produz uma consequência importante. Talvez ele não passe a enxergar melhor o mundo imediatamente.
Mas passa a enxergar melhor a si mesmo.
E, com o tempo, isso transforma tudo aquilo que ele vê depois.