Existe uma diferença entre olhar e ver.
Olhar é algo que fazemos o tempo todo. Ver é mais raro.
Ver exige uma interrupção. Um instante em que a realidade deixa de se encaixar perfeitamente nas explicações que construímos sobre nós mesmos, sobre os outros ou sobre o mundo.
Quase sempre esse momento é desconfortável.
Não porque a verdade seja necessariamente dura, mas porque ela costuma exigir a revisão de algo que já considerávamos resolvido.
Talvez por isso seja tão comum resistirmos a certas percepções.
Nem toda cegueira nasce da incapacidade de enxergar. Algumas nascem da dificuldade de aceitar o que seria visto.
O início da percepção
Existe um ponto em que as justificativas começam a perder força.
Um ponto em que deixamos de explicar um comportamento e começamos a observá-lo.
Deixamos de defender uma crença e passamos a investigá-la.
Deixamos de procurar culpados e voltamos a atenção para os padrões que ajudamos a sustentar.
É nesse espaço que a percepção começa.
Não quando encontramos respostas, mas quando nos tornamos capazes de formular perguntas melhores.
O preço que se paga adiantado
Ver custa antes de render.
Primeiro vem o incômodo. A dúvida. A sensação de que algo conhecido deixou de parecer tão sólido quanto antes.
Só depois, às vezes muito depois, surge a clareza.
Quem abandona o processo no primeiro desconforto dificilmente alcança essa etapa. E pode concluir, equivocadamente, que não havia nada para ser visto.
Mas a percepção raramente se anuncia com conforto.
Ela costuma chegar como uma pequena ruptura entre aquilo que acreditávamos saber e aquilo que começamos a enxergar.
Nenhuma reflexão pode decidir o que fazer com essa descoberta.
Ela apenas oferece um instrumento: a atenção.
O que cada pessoa escolhe fazer com aquilo que passa a enxergar é uma conversa que pertence exclusivamente a ela.